
Seis e quinze tocou o despertador. Arrependi-me do toque musical escolhido na hora, acordar com o solo de guitarra do Dire Straits é mau-humor certeiro. Muita agitação para um despertar. Vou checar Nora Jones, Adriana Calcanhoto e Elis Regina.
Especialmente hoje, antes do expediente, eu precisava encontrar meu dentista. Porém, por conta de uma insistente bradicardia o tratamento foi alterado para uma data posterior, o que fez com que eu chegasse cedo demais no Centro.
Após adentrar o edifício onde trabalho, escutei alguém berrar em tom de leve desespero: “Cuidado, não encoste na porta!”.
Que porta? Foi quando olhei para trás e vi algumas pessoas aglomeradas em frente ao prédio, impedidas de entrar pelo desabamento da porta de rolamento frontal, que ameaçava terminar a queda a qualquer instante.Bom, passei distraída, não vi a catástrofe. Mas já que havia entrado, fui trabalhar.
Ao chegar à empresa, encontrei alguns poucos colegas de trabalho, que chegaram igualmente cedo, e a diretora de tecnologia, discutindo os perigos do possível desabamento. Chegamos à conclusão que deveríamos avisar as autoridades e sugerir que interditassem a passagem no edifício comercial, a fim de que a porta não atingisse ninguém, que tentasse entrar ou sair do prédio.
Liguei para 193. A ligação chamou até cair por duas vezes. Sob palpites, tentamos então, a Defesa Civil, 199.
Depois de um longo tempo de ligação, a atendente da Defesa Civil Municipal avisou que não poderia interditar a entrada, já que “Senhora, somente a Justiça pode impedir o direito do cidadão de ir e vir”.
Parece brincadeira. Peguei o telefone e tentei o Corpo de Bombeiros novamente. A atendente foi clara: “Não podemos ajudar, o Corpo de Bombeiros deverá ser acionando apenas quando a porta atingir alguém. Sem feridos, não podemos atender”. Afinal de contas, quem disse que é melhor prevenir do que remediar?
Liguei para 190. Apesar de eu já estar em segurança, achei prudente me esforçar para zelar pelo bem-estar físico do próximo:
- Polícia Militar, Fulana de Tal, para sua segurança esta ligação está sendo gravada, em que posso ajudar?
Uma frase bastante extensa para alguém que pode estar em perigo iminente do outro lado da linha. Enfim, o desfecho desta ligação também não foi bom, a atendente pediu que eu ligasse para 199, Defesa Civil.
Liguei para 199. De novo.
- Defesa Civil.
- Bom dia. A porta de um edifício comercial, na Rua da Quitanda, está despencando, colocando em risco os pedestres que passam por ali e o pessoal que trabalha no prédio. Você pode me ajudar?
- Qual seu nome?
- Amanda.
- Nome completo, por favor.
- Amanda Freitas.
- O edifício é comercial?
- Sim.
- Você trabalha aí?
- Hu-hum...
- Está no prédio?
- Sim.
- Qual é o número do seu telefone?
- 3094 2265.
- Tem ramal?
- Não, esse é o número da minha mesa.
- É a porta frontal?
- Isso. Frontal e única, aqui não tem saída de emergência.
- Quantos andares o prédio possui?
- 13.
- A fachada ou marquise também estão caindo?
- Não, só a porta.
- Pode me passar um ponto de referência?
- Sim, é quase na esquina com a Rua Sete de Setembro, próximo ao Shopping Vertical.
- Qual o número do prédio?
- 50.
- Só um minuto...
- Vocês vão fazer alguma coisa?
- Sim, estou abrindo um chamado, vou passar para a equipe de engenharia e eles vão verificar o local.
Cobrindo o fone do aparelho, virei abruptamente para trás e anunciei aos colegas de trabalho, que acompanharam todas as frustradas ligações anteriores aos serviços públicos de apoio à população:
- Eles vão enviar engenheiros!
Pedi que se interrompesse o alvoroço satisfeito para que eu retomasse a ligação:- Amanda?- Pois não.
- O chamado foi aberto, mas acontece que nosso dia de cobertura ao Centro é quinta-feira somente.
- Hoje é quarta.
- Isso.
- Então?
- Então, não podemos ir. A cobertura ao Centro do Rio é quinta.
- Não sei o que dizer...
- Nem eu.
- Bom, obrigada... Por nada.
Anestesiados com a sensação de impotência e sem saber ao certo para onde estava sendo desviada aquela altíssima fatia monetária, retirada mensalmente dos nossos salários, tomamos à única medida cabível para a situação.
Cruzamos os dedos e, envoltos em pensamento positivo, enviamos vibrações à portaria do prédio para que a porta, definitivamente, caísse sobre algum desavisado. Nada grave, claro. Não somos maus. Trata-se, que havendo feridos, o Bombeiro, finalmente, atende.
Boa leitura,
Amanda Freitas.
1 comentários:
Quer dizzer, que se um desabamento, sem mortos e feridos acontece na sexta-feira, a Defesa Civil chega na quinta da outra semana?
Brasil, Brasil...
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